Saneamento vai além dos canos: por que o acesso à água é uma questão de equidade de gênero?
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Autor: Francis Warrener
Quando falamos em acesso à água e ao saneamento básico, é comum que a primeira imagem que venha à cabeça seja a de redes, tubulações, estações de tratamento e grandes obras de infraestrutura. Mas o tema vai muito além do concreto e do PVC.
O acesso à água, ao esgotamento sanitário e à higiene está diretamente ligado ao tempo disponível, à segurança, à privacidade, à saúde e à dignidade humana. Por isso, discutir acessibilidade em saneamento não significa apenas verificar se existe um ponto de água ou uma instalação sanitária no mapa. Significa entender se esses serviços estão realmente ao alcance das pessoas no dia a dia, de forma segura, adequada e compatível com suas necessidades.
E, quando olhamos para a realidade dessa acessibilidade, a desigualdade de gênero ocupa um lugar central.
O que significa acessibilidade física em água e saneamento?
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a acessibilidade física é um dos princípios dos Direitos Humanos à água e ao saneamento. Na prática, isso significa que a água e as instalações sanitárias devem estar disponíveis em um local seguro, próximo e adequado para todas as pessoas.
Esse princípio envolve diferentes dimensões do cotidiano, como:
- A distância entre a moradia e a fonte de água;
- O tempo gasto no deslocamento e na fila para buscar água;
- O esforço físico necessário para transportá-la;
- A segurança e a iluminação do trajeto;
- A privacidade e a funcionalidade das instalações sanitárias;
- A adequação do espaço anatômico e funcional para mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Não basta que o serviço exista no papel ou na região: ele precisa ser efetivamente acessível e funcionar de modo a preservar a rotina e a dignidade humana.
A “pobreza de tempo” e a economia do cuidado
A falta de acessibilidade à água e ao saneamento não afeta todas as pessoas da mesma forma. Em muitos contextos estruturais, mulheres e meninas ainda assumem a maior parte das responsabilidades da chamada “economia do cuidado” — a gestão e higiene da casa, o preparo de alimentos e o cuidado com filhos, doentes e idosos. Quando a água não está disponível dentro da residência ou em suas proximidades, são elas que passam a dedicar horas diárias à coleta, ao transporte e à gestão do uso doméstico desse recurso. Assim, uma falha que pode parecer apenas de ordem operacional ou de engenharia acaba produzindo um efeito social devastador: a pobreza de tempo.
A ausência de abastecimento exige uma reorganização da rotina familiar que recai sobre os ombros femininos. Quando parte significativa do dia é consumida por atividades básicas de sobrevivência, reduzem-se drasticamente as possibilidades de essas mulheres e meninas se inserirem no mercado de trabalho, frequentarem a escola, descansarem ou participarem de outras esferas da vida social. A desigualdade histórica é, literalmente, reforçada a cada balde carregado.
Privacidade, segurança e o combate à violência de gênero
A desigualdade também aparece de forma alarmante no acesso às instalações sanitárias e de higiene. Não se trata apenas de construir um banheiro, mas de garantir que ele seja um ambiente protegido.
Essa discussão se torna urgente quando consideramos as necessidades biológicas e sociais femininas, como a dignidade menstrual, a gestação e o puerpério. Instalações inadequadas, sem água limpa ou sem portas com trancas, dificultam a higiene pessoal, geram constrangimento e comprometem a autonomia.
Mais grave ainda: a falta de privacidade e de iluminação faz com que o uso de sanitários comunitários ou distantes seja evitado durante a noite, trazendo graves consequências para a saúde (como infecções do trato urinário). Em contextos de alta vulnerabilidade, a dificuldade de acesso a banheiros adequados expõe mulheres e meninas a situações de medo, assédio e risco elevado de violência sexual.
Os efeitos da exclusão em escolas e espaços públicos
A acessibilidade ao saneamento não impacta apenas a vida dentro de casa; ela dita quem pode ocupar os espaços públicos. Ela interfere diretamente na forma como mulheres e meninas vivenciam escolas e locais de trabalho.
A ausência de instalações sanitárias adequadas e seguras é uma das principais causas de evasão escolar de meninas durante o período menstrual (fenômeno ligado à pobreza menstrual). No ambiente de trabalho, a falta de infraestrutura compromete o conforto, a saúde e a produtividade.
A equação é simples e dura: sem saneamento, direitos fundamentais como educação, trabalho digno, moradia adequada e igualdade de oportunidades ficam ameaçados.
O que isso significa para o setor de saneamento?
Para engenheiros, projetistas, gestores e todo o setor de saneamento, essa discussão traz uma mensagem inegociável: ampliar a cobertura (instalar mais canos) é fundamental, mas não é suficiente por si só. É preciso garantir que a infraestrutura implantada seja desenhada com foco no usuário final, promovendo acessibilidade, segurança e inclusão.
Isso significa olhar para a prestação do serviço de forma mais humana e questionar:
A água chega com regularidade e pressão suficiente para evitar o armazenamento inseguro?
As instalações sanitárias projetadas oferecem real privacidade e segurança contra violências?
Os espaços atendem às necessidades específicas de higiene menstrual e materna?
A solução de engenharia adotada rompe o ciclo de desigualdade ou apenas mantém as barreiras já existentes?
Planejar e operar serviços com esse olhar abrangente, entendendo a infraestrutura como um vetor de transformação social , é o que diferencia o simples cumprimento de metas da verdadeira universalização justa e efetiva.
Referências:
ONU (Organização das Nações Unidas). Direito humano à água potável e ao esgotamento sanitário (Oitavo Relatório). Disponível em: ONDAS Brasil. Acesso em: 23 de março de 2026.
ONU (Organização das Nações Unidas). Relatório do Relator Especial sobre o direito humano à água potável segura e ao esgotamento sanitário (Sétimo Relatório). Disponível em: ONDAS Brasil. Acesso em: 23 de março de 2026.
STOLER, J; GUZMÁN, D. B.; ADAMS, E. A. Measuring transformative WASH: A new paradigm for evaluating water, sanitation, and hygiene interventions. Wiley Interdisciplinary Reviews: Water, v. 10, n. 5, p. e1674, 2023.
